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Sobre

O Museu Digital pode ser entendido como um lugar democratizante em que se produzem relações de alteridade, construções identitárias, isto é, de reconhecimentos e pertencimentos locais, regionais e nacionais. Pela sua própria natureza, é também um dispositivo de acesso fácil, dinâmico, gerador de interatividade, que espelha o cotidiano e a cultura de diferentes grupos sociais, de minorias étnicas, de grupos marginalizados que se reconhecem por meio de valores, tradições, pertencimentos locais comuns, memórias individuais e coletivas.

Enquanto espaço conceitual, o Museu digital é, portanto, um lugar privilegiado que visa estimular o uso da memória social de minorias étnicas, de movimentos sociais, de memórias nacionais. Neste sentido, a ideia de construção de arquivo e museu de memórias vivas, veiculadas em rede, demanda um diálogo profícuo com questões referentes ao patrimônio material, imaterial e étnico, envolvendo diferentes usuários. Tal proposta contribuirá para a integração entre a cultura popular e a erudita, permitindo também o acesso do público jovem – consumidor de novas tecnologias – aos bens culturais como estratégia de criar novas sensibilidades e conhecimentos.

O projeto de Museu Afrodigital (MD) começou de fato antes do próprio digital, em 1998 na alvorada do Curso Internacional Fábrica de Ideias no antigo Centro de Estudos Afro-Asiáticos da Universidade Candido Mendes no Rio de Janeiro.

Desde 2002 a Fábrica de Ideias é um Programa Permanente de Extensão em Pós-Graduação no Centro de Estudos Afro-Orientais da Universidade Federal da Bahia(UFBA). Começou com uma coleção de recortes de jornais e folhetins de e sobre o movimento negro, o racismo e a África na imprensa brasileira, iniciada sob a coordenação de Carlos Hasenbalg, que recebeu um apoio do fundo para resgate de arquivos em perigo do Programa Sephis – entidade infelizmente em processo de extinção. Nosso projeto de MD tenciona aproveitar da rede de cerca de 430 pesquisadores júnior e sênior desenvolvida graças ás quinze edições do curso internacional Fábrica de Idéias assim como da rede Sul-Sul que desenvolvemos graças ao apoio do Sephis Program. Idealmente, cada um destes pesquisadores pode ser um colaborador de nosso projeto museal interativo, fornecendo cópia digital de documentos assim como sugestões, criticas e contatos. Nosso MD almeja ter uma grande rede de antenas de captação.

Nosso MD já recebeu alguns importantes apoios (Prince Claus Foundation, CNPq, Capes, Finep, Fapesb) e estabeleceu uma série de parcerias institucionais (entre outras, com a Associação Brasileira de Antropologia). Participamos da rede da Memória Virtual da Fundação Biblioteca Nacional (FBN) e estamos definindo uma parceria com o (Arquivo Nacional (AN), que poderá priorizar a questão negra num futuro próximo, assim como priorizou a tortura em uma recente e interessante exposição digital. Por meio da plataforma DSpace a BN será nosso repositório digital. Lá ficarão guardadas, com recursos em constante atualização, cópias digitais em alta definição (300 dpi) dos documentos que nosso MD disponibiliza, em princípio, em baixa resolução (64dpi) – seja para não tornar mais pesada a navegação seja por motivo de direitos autorias que as vezes se aplicam aos documentos. Os documentos em nosso MD podem ser usados livremente para fins educativos e de pesquisa. É suficiente citar a fonte original e nosso MD. Quem precisa de cópia em alta definição, por exemplo, para fins de publicação, poderá obtê-la junto ao setor apropriado da BN.

Nosso acervo é tanto, digamos assim, herdado, resultando de arquivos já existentes, quanto criado ex-novo, provindo de nova pesquisa e processos de captação de documentos. Por herdar entendo o recuperar cópia digital, total ou parcial, de coleções já presentes em arquivos – cópias que podemos exibir em galerias temáticas compostas por documentos provenientes de diversos arquivos.

Já dispomos de cópia de documentos de importantes pesquisadores (ver site), repatriados ou doados, inclusive com o apoio do Smithsonian Institute em Washington/DC, Archive of Tradicional Music da University of Indiana at Bloomington, Moorland-Spingarn Research Center da Howard University, Schomburg Institute da New York Public Library, Melville Herskovits Library da Northwestern University, Archivos da Unesco, em Paris e AEL na Unicamp, no caso do acervo de Donald Pierson. Estamos aos poucos levantando quais coleções de nosso interesse há no Brasil, na BN, AN, Fundaj e outros arquivos menores (como IGHB, arquivo Jair Moura da Capoeira, coleções privadas de pesquisadores, ativistas, casas de santo, sindicatos e colecionadores). Fizemos um primeiro inventário nacional no seminário de lançamento de nosso MD, em 10 e 11 de junho de 2010.

Para descrever o que entendemos por criar nosso acervo preciso apontar por quatro conceitos que norteiam, politicamente, nosso trabalho:
1) Repatriação digital: sugerimos aos arquivos estrangeiros que possam ficar conservando de boa forma os documentos originais, mas que sejam altruístas com as copias digitais, que deveriam ser circuladas livremente sem altos custos de reprodução, permitindo aos pesquisadores analisar documentos sem ter que necessariamente se deslocar e viajar para o exterior;
2) Doação digital: por meio da criação de um termo de cessão digital, já disponível em nossa homepage, e indicando a UFBA e a rede da Memória Virtual da Biblioteca Nacional como repositório digital, por meio da plataforma Dspace, tencionamos induzir uma política e prática de disponibilização. Em princípio não queremos ficar com os documentos ou peças originais, mas somente digitalizá-los, arquivá-los e musealizá-los em nossas galerias. Os originais serão devolvidos para os donos, após, se necessário, uma sua limpeza e melhor acondicionamento segundo os critérios da moderna arquivologia. Afinal pretendemos ser um museu sem donos! Em casos excepcionais, quando os documentos originais correm perigos (por má conservação ou porque estão sendo vendidos ou cedidos a privados e/ou entidades no exterior), poderá proceder a sua conservação em um arquivo ou biblioteca pública, assim como a sua definição como documento de interesse público, para prevenir que sejam enviados para fora do território nacional e facilitar a captação de recursos para sua justa conservação. Não se pode subestimar a importância deste último processo, sobretudo no Nordeste onde há graves carências das instituições públicas, sejam elas arquivos públicos, bibliotecas ou museus. Aliás, talvez é nessa região que a histórica pouca visitação popular, dessas instituições seja ainda mais acentuada. É por isso nesta região, ademais de grande população negra, que concentraremos nossas atenções, sem detrimentos de outras regiões, na campanha de sensibilização em prol da doação digital;
3) Etnografia digital: este método visa a captação de documentos e, contemporaneamente, a sensibilização de comunidades específicas no sentido de aderir ao movimento para a doação digital. Isto faremos por meio de nossa pesquisa de campo por meio de uma estação itinerante de digitalização e, mais adiante, de museu mambembe, que procura seu público e cria momentos de dramatização em torno da memória, por exemplo, da escravidão no Recôncavo baiano. Pensamos, por isso, á instalação em lugares estratégicos como o saguão dos museus e as salas de espera das estações de ônibus, de uma série de “torres de memória”, terminais com um computador onde se possa tanto acessar ao MD como contribuir ao seu acervo, doando digitalmente documentos por meio de entrada USB, cartão SD ou gravador de voz, o comentar sobre o mesmo – deixando impressões e críticas.
4) Generosidade e solidariedade digital: Este ponto parte da constatação que estamos a vivenciar um novo e crescente anacronismo no processo de criação de difusão do conhecimento: hoje se editam e produzem mais livros e, em geral, textos de cunho científico que nunca, e estes tendem a ser mais facilmente e rapidamente traduzidos em outros idiomas que antes, mas seu uso e interpretação são menos facilmente contextualizáveis que nunca – texto e contexto andam menos juntos que antes. Se uma vez podia se traçar a gênese de um texto ou obra, fazendo uma autentica arqueologia de seu processo de produção, em se podendo basear em cadernos de campos, notas, escritos, trocas epistolares e rascunhos, que tipo de arqueologia do saber pensar hoje? O hipertexto já está penetrando nossa prática de pesquisa e o cotidiano da troca de opiniões com colegas. Pouco se guardam os e-mails, que são sempre demais e muitas vezes escritos em “linguagem suja”. O caso da correspondência de Marvin Harris, arquivada nos National Anthropological Archievs do Smithsonian Institute, e desde 201 disponível para consulta, é emblemático: até 1990 ha uma caixa por ano de cópia de cartas, de 1990 a 1992 diminuem rapidamente o número de cartas em papel, mas Harris mantém cópia impressa dos E-mails, mas a partir de 1993 até a morte de Harris no arquivo não ha mais documentos em papel. Se, por um lado, o e-mail significa este sumiço da correspondência em papel, por outro lado, a web poderia se tornar, explorando novas fronteiras metodológicas, uma grande e nova forma de compartilhar a experiência de pesquisa: aprendendo a intercambiar e trocar dicas, sugestões, listas de perguntas, anotações, questionários, dados secundários e, quando possível, até primários. Em algum caso nossos informantes, pelos menos aqueles chave, até prezam a manutenção do contato ao longo do tempo com pesquisadores de sua realidade, inclusive como forma de passar a ser sujeito e não mais somente objeto da pesquisa. Por isso depoimentos destes informantes poderão se fazer presentes em esta parte da homepage do MD dedicada á pesquisa de campo. Neste sentido, poderia se criar um protótipo de um portal onde os pesquisadores possam intercambiar estas experiências, um dos espaços de diálogo de nosso MD. Vários pesquisadores poderiam também cooperar na curadoria de museus presencias ou virtuais, explorando novas formas de curadoria coletiva – a descrição e apresentação de cada documento exposto seriam feita em grupo, ou com vozes e perspectivas diferentes, com a possibilidade de ser constantemente atualizada. É isto que em inglês se chama de crowdsharing ou crowdsourcing.

No que diz respeito os direitos autorais nos acreditamos na filosofia que norteia o movimento dos criative commons, citar é necessário, mas não pagar. No âmbito de nosso MD a questão dos direitos autorais se põe tanto no uso de software como nos termos do direito de imagem, da salvaguarda da privacidade e da reprodução digital de um documento e sua sucessiva disponibilização pela web.
Em termos de tipos de documentos é importante é também detalhar o que entendemos por documento no caso de nosso Museu Digital. Sabe-se que o termo documento é polissêmico e que todo documento é, de fato, um monumento. Em se falando de digitalização, os documentos que escolhemos também serão resultados de escolhas, políticas e processos de monumentalização e patrimonialização. Concretamente, os documentos que priorizamos são compostos por um conjunto amplo que obviamente inclui as fontes escritas, mas não pode se limitar ao registro escrito no sentido mais estreito: material impresso (por exemplo, recortes de jornais), documentos pessoais, cartas, atas, textos originais e não publicados, poesias, receitas culinárias ou da medicina tradicional, fotos, iconografia, gravações e partituras de musicas, depoimentos (já gravados ou produzidos por nossa equipe ad hoc), rezas, cantigas, reproduções de objetos ou artefatos da cultura material, filmagens e gravações de eventos culturais ou políticos. Pensamos, sobretudo, em:
1) Documentos que já existem em a. arquivos; b. acervos particulares. Trata- se tanto de arquivos “sobre”a população afro-brasileira como, em medida menor, de registros produzidos por afro-brasileiros (antropólogos, intelectuais, artistas, ativistas, lideranças religiosas etc.). Podemos ser um museu dos museus e um arquivo dos arquivos: por exemplo, podemos montar exposições temporâneas com “peças” de diferentes arquivos ou museus. Peças que seriam intercambiadas por meio de uma politica de empréstimo digital;
2) Documentos capturados e/ou produzidos por pesquisadores, que os circulam on line, autorizando sua publicação parcial ou integralmente, durante e depois da realização de pesquisa;
3) Documentos ex-novo – sobretudo a capturar quando não há registros prévios.
Estes podem ser depoimentos, fotos, gravações musicais etc. Pode se tratar também de documentos produzidos gravando ou registrando como um determinado grupo ou comunidade recepciona nosso projeto e pesquisadores – como as pessoas recebem, comentam e, por vezes, dramatizam imagens e documentos sobre sua própria realidade que nos apresentamos para eles. Esta última forma de capturar documentos e registrar a memória gostaria chamar de museu mambembe ou itinerante – o tipo de museu que procura e cria seu próprio público.

Escolhemos as coleções mencionadas por uma série de critérios. Começamos com uma série de coleções renomadas nos Estados Unidos e França (ver site), que até então não tinham sido disponibilizadas para um amplo público brasileiro – porque não digitalizadas ou não disponíveis on-line. “Repatriar” virtualmente estes registros, por meio de acordo de cooperação com instituições estrangeiras que prevê a digitalização e disponibilização na rede, tem sido nossa primeira etapa – ainda incompleta porque ainda constam muitos acervos de pesquisadores sobretudo estrangeiros que são de acesso mais difícil.
Escolhemos os registros porque, para a recomposição da memória afro-brasileira, interessam-nos tanto figuras conhecidas da vida social, política e intelectual do Brasil, como figuras anônimas ou pouco conhecidas, ou mesmo desconhecidas – por exemplo, mães e pais de santo ou as primeiras turmas de alunos cotistas em uma universidade pública. O sítio web, com telas ideográficas dinâmicas, deverá estar em constante atualização, produzindo material para que sujeitos/ pesquisadores possam se comunicar sobre os documentos já on-line e acrescentar outros – segundo os princípios da generosidade e doação digital. Neste sentido nosso projeto prevê uma constante pesquisa e atualização dos softwares ou plataformas mais adaptáveis para fins de gerenciamentos de conteúdos e criação de repositórios digitais.

Pensamos, em primeira instância, em documentos e materiais produzidos por pessoas identificadas como negros e/ou afro-brasileiros – porque está aqui a carência maior – a ser procurados juntos a lideranças religiosas afro-brasileiras, ativistas negros, sindicalistas, músicos (eruditos e populares), mestres e academias de capoeira, lideranças quilombolas, ONGs, concernentes às populações afro-brasileiras, Igreja Católica (sobretudo a Pastoral do Negro) e algumas igrejas pentecostais, arquivos pessoais de componentes da elite negra.Também importantes serão registros ainda não publicados ou de difícil acesso se já publicados, produzidos “sobre” ou “para” os negros e/ou afro-brasileiros e as relações raciais mais em geral por uma variedade de figuras profissionais ou do mundo intelectual que tem observado esta realidade ao longo da historia do Brasil: viajantes, missionários, diplomatas, religiosos, ensaístas, jornalistas, antropólogos e outros cientistas sociais.

Em termos de nossa estrutura interna pensamos em um núcleo coordenador e uma rede de colaboradores. Estamos a trabalhar com equipes regionais, que dispõem de total autonomia, estabelecidos, por agora, em cinco estados. Nosso Museu Digital é um instrumento de pesquisa com características de serviço público. Ele funciona com um núcleo central de pesquisadores e técnicos e uma rede mais ampla de colaboradores. Estes são, primeiramente, pesquisadores ativos no meio acadêmico, mas também colecionadores, pesquisadores autodidatas, ativistas e curadores. Esse MD deverá ser mais do que um arquivo digital. Haverá visitação, em vários níveis. Haverá também interação entre usuários e o MD, inclusive com a criação de pontos de memória (e captação de documentos) em espaços públicos. Queremos funcionar em rede, com o apoio de nosso conselho consultivo, que reúne pesquisadores, curadores, intelectuais, artistas e ativistas de vários países e que se reunia periodicamente por videoconferência, assim como de uma associação de amigos do museu digital que poderá ser crida mais adiante e que animará o café (virtual) de nosso MD, disponível em nossa homepage.

Pode-se colaborar de diversas formas: doando digitalmente material, colaborando com sugestões e críticas, ou se responsabilizando para a construção e curadoria de uma galeria, que consiste em um conjunto de documentos enfocando um tema específico que são musealizados por meio de uma série de recursos diferentes. Para a construção de uma galeria, nos fornecemos ao pesquisador responsável, após a avaliação de seu cadastro, uma senha que permite acesso à seção de nosso MD que nos chamamos de galeria. Por estes meio o nosso tenciona ser um museu com alto grau de interatividade com seu público.
Nosso Museu Digital, é evidente, apresenta toda uma série de grandes desafios, já em sua primeira fase de atividade e de projetação. Tivemos, rapidamente, que definir como lidar com categorias como:
• Autenticidade (o que é um documento autêntico?);
• Originalidade (quais documentos escolher, dentro de conjuntos frequentemente muito amplos?);
• Propriedade (qual propriedade reconhecer ou negar? E em qual medida?);
• Privacidade (pode se tornar tudo público?);
• Exclusividade (aquele fenômeno que se dá entre historiadores na forma da categoria “meus documentos” e entre os antropólogos na forma da categoria “meus informantes”);
• Direitos autorais, de imagem e privacidade (o que é publico ou privado; por que, para o que e a quem pedir autorização);
• A quem conferir o status de pesquisador (o que fazer com os autodidatas);
• Se e como incorporar os arquivos dos movimentos sociais, associações e ONGs;
• Que tipo de intercâmbio tecer com outros Museus Digitais ou virtuais;
• Que relação manter com os projetos de digitalização de arquivos, por exemplo, na África – deve se tratar de intercâmbio de tecnologia e/ou da troca de documentos em torno de temas de importância transatlântica, como mestiçagens, elites de cor ou coloniais, e iconografia racista.

Nosso Museu Digital será também um museu das relações e hierarquias raciais assim como do racismo. Neste sentido depoimentos de negros e brancos, serão importantes assim como registros de documentos, processos, jornais etc. Musealizar o racismo, mesmo que de forma digital, leva a necessidade de refletir sobre o que musealizar a dor e o mal. A reflexão em tornos dos museus do holocausto, da escravidão e do apartheid será fonte de inspiração.

Finalmente, nosso projeto desafia por precisar desenvolver novas formas de musealização virtual, criando aquelas que nos chamamos de galerias, que aproveitam documentos e “peças” do nosso e de outros arquivos digitais tornando-os dinâmico e, de alguma forma, espetaculares. Em suma, como criar, para diversos tipos de públicos, a emoção do museu, agora virtual? O sempre importante elo entre emoção e museu é ainda mais difícil de ser criado nos museus virtuais, que são intangíveis e apresentados por paginas web que precisam de constantes atualizações e ‘revoluções visuais’ para continuar atrair visitantes.

Qual é a relação entre o aspecto presencial e aquele digital na visitação e no “uso” dos museus? Afinal um museu digital é sempre um museu: com reserva técnica, galerias permanentes, galerias temporárias, curadores, conselho científico, plano museológico, relação com os visitantes. Como avançar na prática da reciprocidade, das informações e dos documentos que em um museu digital devem circular em, pelo menos, dois sentidos? Se um MD tem o “defeito” de não ter objetos sólidos, sua pouca materialidade oferece a vantagem da “mexibilidade”. Não somente permite, mas incentiva o visitante a mexer com seu acervo e aumenta o número de protagonistas. Por isso precisamos começar a pensar na instalação de algumas “torres de memórias”, em lugares estratégicos, que funcionem, de forma inovadora, nos dois sentidos – dando e recebendo informações (tratar-se-ia de fato de um desdobramento do projeto de pontos de memória promovido pelo Ministério da Cultura).

Nosso Museu Digital, por tudo isso, é tanto um serviço público quanto um instrumento de pesquisa e de instigação á reflexão sobre as ciências sociais e sua aplicabilidade, sobretudo as questões levantadas pelo desenvolvimento de um novo multiculturalismo à brasileira e a relação entre novas tecnologias comunicacionais e o uso da memória. Pretendemos dar uma contribuição concreta á feitura de uma nova geopolítica do conhecimento. Criar museus e arquivos a partir do Sul e em uma perspectiva Sul-Sul, mesmo em se tratando de experiências digitais ou virtuais, pode contribuir a mudar as formas tradicionais de se associar lugar com conhecimento e sua preservação.
Neste sentido, achamos maduro começar pensar em uma nova, mais critica e menos “natural” política da conservação – politics of storage – que questione as atuais relações de poder em torno deste processo, centrada na noção de “quem guarda, manda”.

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